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Entrevista do mês: Nelson Carvalho Neto, o Nelsinho, técnico da Tuper/Condor de São Bento do Sul


Quarta-Feira, 04 de Março de 2015 às 11:53:46

É com muita alegria que estamos trazendo a entrevista com o nosso amigo e grande profissional do futsal, Nelson Carvalho Neto, o Nelsinho, 46 anos, 27 deles dedicados ao futsal.

Natural de Urussanga, Santa Catarina, Nelson é casado e pai de dois filhos, Gisele e Nelson. Em 1988 formou-se no Centro de Educação Física e Desportos (CEFI/UDESC).

A seguir você conhecerá um pouco mais da sua carreira, da histórica passagem e conquistas no comando técnico das equipes de base e adulta da Tuper/Condor, do atual momento que vive as categorias menores em São Bento do Sul, entre outros assuntos.

 

Futsal de Primeira: Como teve início sua carreira no futsal?

Nelsinho: Em meados de 1986, então com 16 anos e no primeiro ano cursando Educação Física, recebi o convite do amigo Edjaime Farias para ser auxiliar técnico e preparador físico do Clube Recreativo 6 de Janeiro, equipe que eu era atleta na categoria Sub-20. Fiquei meio ano colaborando em forma de estágio e em 1987 já estava como técnico da escolinha nas categoria Pré-Mirim e Mirim.

 

Futsal de Primeira:Quais os técnicos que você procura ter como exemplo?

Nelsinho: No início acompanhava os jogos do BESC e Colegial, admirando sempre (ainda admiro) o comando do amigo Valcir Moreira. Com o passar dos anos, busquei entender a forma de comandar do PC de Oliveira e do Sérgio Antunes (o Magrão, de São Miguel do Oeste). Sempre fui um admirador da percepção deles em ler e mudar o jogo em uma ou duas dicas.

Aprendi também muito com o Maneca (Manoel Dalpasquale), pois por muito tempo nos enfrentamos aqui no estado e bater o homem não era fácil, o dia dele parecia ter mais de 24 dedicados ao futsal.

 

Futsal de Primeira: Atualmente você trabalha apenas com o futsal ou atua também em outra área?

Nelsinho: Me formei em 2007 em direito e hoje atuo também como advogado, mas o futsal continua no sangue e minha fonte de renda principal.

 

Futsal de Primeira: Quais os atletas que tiveram o início da carreira em São Bento do Sul e hoje estão jogando por grandes equipes do Brasil e do mundo?

Nelsinho: Tivemos muitos que continuam se destacando regionalmente, mas hoje a maior projeção é do Maico no Brasil Kirin e do Charuto no Corinthians.

 

Futsal de Primeira: A geração do Maico, Langa, Deucio e Leonel foi a melhor já formada em São Bento do Sul? Quais as conquistas deste grupo?

Nelsinho: Sim, foi uma geração bem forte, que em seu primeiro ano de disputa (2002) conseguiu a honrosa 23ª posição no Estadual Infantil entre 24 equipes.

As maiores conquistas desse grupo foram o Estadual Infanto em 2004, o vice campeonato Brasileiro de 2005 em Minas Gerais, o campeonato Brasileiro de Seleções Sub-17 representando Santa Catarina também em 2005, dos Joguinhos Abertos de Santa Catarina em Criciúma no ano de 2006, dentre muitas outras conquistas regionais e municipais.

 

Futsal de Primeira: Em 2005 você foi o técnico da Seleção Catarinense Sub-17.  Na oportunidade você convocou os atletas que formavam a base da sua equipe e também atletas que estavam se destacando nesta categoria. Você pode nos contar um pouco de como foi essa competição em que Santa Catarina conquistou o título?

Nelsinho: A comissão técnica foi um grupo muito unido e deu-me toda condição de cuidar somente dos problemas da quadra. Tínhamos o Werninho como chefe de delegação, eu de técnico, Otto da Metisa/Timbó e Tita da Tuper/São Bento do Sul como auxiliares, Batista de Tubarão como estatístico e o André também de Tubarão como fisioterapeuta.

Foi um grupo sensacional que além dos sete atletas que formavam a base da nossa equipe (Leonel, Sabiá, Maico, Langa, Deucio, Creba e Andy), convocamos uma geração de talento puro. Darlan, de Joinville; Pica Pau e Café de Jaraguá; Roncaglio e Keko da ADHering/Blumenau; além do Mithyue  e Claudio de Chapecó.

 

Futsal de Primeira: Como conhecedor e estudioso do nosso futsal como você qualificaria o atual estágio do futsal brasileiro?

Nelsinho: Acho que se encontra em um período de transição e de mudança de conceitos. Precisamos entender que não há só uma forma correta de trabalhar, estamos num momento de mescla de trabalhos e o futsal está crescendo, as transições de ataque e defesa estão mudando, continuo achando que temos o melhor futsal do mundo, mas é inegável que nos últimos dez anos, países como Espanha, Irã e Argentina evoluíram mais do que nós  e isso precisa ser debatido.

 

Futsal de Primeira:  Neste  mesmo contexto onde estaria o futsal catarinense?

Nelsinho: Sempre considerei nosso futsal uma escola sensacional, desde os áureos tempos que iniciei, vendo Perdigão, Tigre, Sadia, Embraco e Sulfabril,  depois Tozzo/Chapecó , mais tarde Nerede/Rio do Sul, Tuper e mais recentemente UNISUL, Floripa Futsal e as poderosas Malwee e Krona/Joinville.

Hoje, percebo um campeonato esvaziado, carente de motivação e com custo muito elevado para os formadores. O reflexo disso veremos nos próximos 3 ou 5 anos. Precisamos acordar, o potencial de Santa Catarina é dos maiores do Brasil, mas quando perdermos esse foco da base, o preço será pago lá na frente e será caro.

 

Futsal de Primeira: O futsal como esporte olímpico vai ser um sonho por muito tempo ainda?

Nelsinho: Tenho pouco conhecimento do verdadeiro motivo de não estarmos lá, mas penso que enquanto tivermos que discutir intervenções na CBFS e brigas internas, continuaremos firmes nessa ingrata função que é ser a moeda de troca do futebol, uma pena. Mas esperava ver logo esse sonho se tornar realidade.

 

Futsal de Primeira: A seleção brasileira depende muito do astro Falcão. Você acha que está no caminho certo à preparação para quando o craque parar?

Nelsinho: Em determinado momento condenei muitas atitudes do nosso grande astro, pois via imagens não muito legais na tela, mas ele amadureceu bastante, sabe da sua importância como ídolo. Ele como atleta e agora mais recentemente como gestor tem sido muito eficiente, os resultados mostram isso, mas acho que se falarmos Seleção Brasileira temos que abranger algo maior, pois os ídolos passam, se eternizam na memória, mas a seleção permanece competindo. Temos que ter uma escola de futsal, Seleções de Base ativas, trabalhando e competindo. Uma equipe de técnicos trabalhando com um único objetivo que é alimentar a principal seleção, com gestores e metas bem definidas. Este é um sonho que somente será possível após a CBFS resolver seus problemas internos.

 

Futsal de Primeira.com : Muitos apoiam e muitos outros criticam a arbitragem catarinense. E qual a sua opinião?

Nelsinho: Arbitragem é sempre um tema polêmico, mas acho que ela precisa mudar alguns conceitos, vejo que já melhorou muito, temos ótimos árbitros em Santa Catarina, mas o problema é que o jovem, bom, que chega cheio de vontade, muitas vezes precisa dançar conforme a música, senão fica de escanteio.

É isso que eu acho que pode melhorar, aproveitando a experiência dos mais antigos e a energia dos mais novos. Se eu fosse árbitro entraria em quadra sempre meditando o quanto aquelas equipes trabalharam pra estar ali naquele momento, e ficaria mais feliz se ao final não tivesse interferido diretamente no resultado do jogo.

Árbitro tem que ser discreto, quem deve aparecer é a bola e o craque, não o árbitro ou o técnico.

Tenho dois ídolos na arbitragem: Daniel Pomeroy e Ideraldo Luis Marques. A forma que eles conduziam o jogo me ensinou muito no quesito educação. Nunca esqueço um jogo da categoria Sub-20 que o Ideraldo me expulsou. Interceptei um lance de gol com a mão e ele veio em minha direção com a mão já no bolso de trás: “Nelson, infelizmente vou ter que expulsar o senhor, por favor se retire da quadra.”

 

Futsal de Primeira: O que você acha da organização das competições adultas oferecidas pela Federação Catarinense de Futsal?

Nelsinho: Acho que estamos a muitos anos no mesmo modelo, a idéia da Copa Santa Catarina  foi eu que dei em 2001 e desde lá permanecemos com esses dois eventos. Os estaduais precisam de uma maior motivação, jogos mais atrativos, ginásios cheios, transmissão na TV e premiação em dinheiro. Fatores fundamentais para melhorarmos a motivação.

 

Futsal de Primeira: E as competições de base, estão num bom nível de organização?

Nelsinho: Acredito que já estivemos melhores, quando surgiu a fase de ranqueamento que permitiu as equipes ditas menores permanecerem mais tempo competindo.

Hoje acho que estamos carentes de uma inovação, creio que a criação de uma liga para o futsal de base seja uma boa saída, onde a formação seja o principal produto. Atualmente a crise financeira afasta as equipes de entrarem no estadual.

Outro ponto negetivo é que no evento você joga para dez ou doze pessoas no ginásio, isso é um sinal que precisa ser percebido e que dele se tire muitas conclusões.

 

Futsal de Primeira: Você já cogitou a possibilidade de no futuro ser o presidente da Federação Catarinense de Futsal?

Nelsinho: No momento não me acho preparado. Não sei se como presidente, mas com certeza no futuro darei minha parcela de contribuição, afinal tudo que sei aprendi na quadra e com a família.

Devo a criação dos meus filhos ao futsal, já fui atleta, preparador físico, supervisor, hoje a minha meta a médio prazo é trabalhar com gestão de esporte. Presidente? Realmente não pensei sobre isso.

 

Futsal de Primeira: São Bento do Sul já foi referência no futsal adulto. Onde essa bela história se perdeu?

Nelsinho: A responsabilidade recaía somente sobre dois ou três empresários. A prefeitura se sentiu pressionada porque as outras modalidades (algumas) em determinado momento não recebiam o apoio merecido, ou seja, um desgaste natural. Hoje, passados mais de 10 anos dos últimos títulos, a cidade sente falta. Estamos movimentando a modalidade em um torneio municipal, onde unimos meninos do Sub-17, de gerações intermediárias e craques do passado para tentar reascender a chama. Vamos ver como a população reage, quem sabe o futuro nos reserva um retorno.

 

Futsal de Primeira: Falando um pouco dos momentos gloriosos da Tuper. Como foi a sua chegada a São Bento do Sul? Quais os títulos daquela equipe?

Nelsinho: Cheguei em 1997 para fazer um trabalho com a base. O técnico na época era o Marcos Moraes. Com a saída dele fui treinar a equipe principal interinamente, os meninos solicitaram a permanência, acabei ficando até o final da equipe que aconteceu em 2000.

Nessa época a equipe já havia sido campeã catarinense e dos Jogos Abertos de Santa Catarina em 1996, repetimos o feito em 1997, 1998 e em seu último ano de disputa ganhamos os Jogos Abertos de Santa Catarina no ano 2000.

Creio que a maior conquista foi o vice-campeonato Brasileiro em 1997. Naquela época éramos meros coadjuvantes entre equipes fortes como Rio Grande do Sul, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro. Foi um momento inesquecível.

O Dilo merece um capítulo a parte na minha história após 1997. Quando cheguei em São Bento do Sul não conhecia ele, apenas o vi jogar, ele era o supervisor da equipe, um escudeiro fiel e equilibrado. Ele com seu jeito tranquilo me trazia uma responsabilidade muito grande na arte de lidar com os outros. Aprendo a cada dia com ele. Um dos grandes amigos que tenho, amigo de toda minha família e de meus amigos de Floripa, me emociono falando dele. Amo ele e espero retribuir um dia o que ele já fez por mim.

 

Futsal de Primeira: Você acha que os técnicos de futsal nas categorias de base em Santa Catarina estão preparados para revelar craques de alto nível?

Nelsinho: Acho que sim, Santa Catarina tem muita gente de qualidade no futsal, mesmo que alguns ainda confundem o objetivo principal que é formar os atletas (homens). Infelizmente ainda vemos trabalhos voltados somente para a conquista de títulos e isso preocupa.

 

Futsal de Primeira: Como você se preparou e se prepara a cada dia para ser um grande técnico de futsal?

Nelsinho: Acho que o estudo é tudo, saber ouvir é importante e a determinação é o caminho. Preparo-me atualizando em cursos, fazendo laboratórios nos treinamentos e assistindo jogos. Acho que é por aí.

 

Futsal de Primeira: Santa Catarina é hoje a segunda força do futsal brasileiro na categoria adulto. Como você enquadraria nosso estado nas categorias de base?

Nelsinho: Fomos durante muito tempo os melhores, hoje estamos remando, precisamos de uma maior parceria entre profissionais, clubes e FCFS para retomar esse título, como disse anteriormente acho importante repensar nossas fórmulas de disputa e duração dos eventos. Profissionais competentes acho que temos.

 

Futsal de Primeira: Quais os seus projetos para 2015 em São Bento do Sul?

Nelsinho: Participaremos apenas do Estadual Sub-15 e tentaremos explorar esse projeto da disputa dessa Copa Regional (Copa A Gazeta). Em cima desse resultado veremos o que acontecerá, mas será um ano interessante.

 

Futsal de Primeira: Numa cidade de médio porte como São Bento do Sul, quais as facilidades e as dificuldades de fazer futsal?

Nelsinho: As facilidades estão ligadas às proximidades entre as casas dos garotos e o local de treino. Ser uma cidade que tem empresas fortes como as nossas duas patrocinadoras (Tuper e Condor) também ajuda.

A grande dificuldade está no apoio municipal, falta uma política voltada ao esporte, onde o atleta possa entrar aos 8 ou 10 anos e só sair no final da adolescência, formado, se não se tornar um profissional, claro.

 

Futsal de Primeira: Você acredita em outras maneiras de reação em momentos críticos dentro do jogo, que não seja o uso do goleiro linha?

Nelsinho: Gosto do goleiro linha, treinamos bastante, mas tudo depende da qualidade do garoto que está na sua mão. Penso que seja uma grande alternativa, mas se devidamente treinada.

 

Futsal de Primeira: O que você mudaria na regra atual se tivesse o poder para tanto?

Nelsinho: Toda falta intencional nos dez minutos finais de cada tempo deveria ser tiro livre (como o basquete). Precisamos de mais emoção, só o goleiro linha não está sendo atrativo o suficiente. Os telespectadores querem ver gol.

 

Futsal de Primeira: O futsal perde mais atletas para as novas tecnologias, para os estudos, para as outras opções de lazer ou para a própria falta de estrutura?

Nelsinho: Penso que ambas tem uma parcela de culpa, não consigo definir qual é pior, mas com certeza na idade escolar 7 a 14 anos temos perdido mais para as redes sociais.

 

Futsal de Primeira: Como você classifica a aceitação dos patrocinadores com as categorias de base?

Nelsinho: Não dão o valor que elas merecem, penso que a base estadual vive de 20 ou 30 abnegados e outros que fazem porque tem a categoria principal e alguns regulamentos exigem a base.

 

Futsal de Primeira: Em São Bento do Sul, quais são os seus patrocinadores e qual a importância desses parceiros?

Nelsinho: Tuper, que sem dúvida é a empresa que está no futsal a mais tempo, desde  1991, e a Condor. Sem elas estaríamos fadados a morrer aqui. Difícil falar delas, me emociono demais.

 

Futsal de Primeira: Você é a favor de mecanismos jurídicos ou financeiros que impeçam a saída dos talentos até os 16 anos, sem qualquer benefício para o clube formador?

Nelsinho: Com certeza, a hora que o clube de futsal formador for premiado por formar determinado talento, terá uma explosão de investimentos.

 

Futsal de Primeira: Você citaria algum jogo ou jogos inesquecíveis que tenha participado ou assistido?

Nelsinho: Dentre muitos outros, que eu tenha participado, a final dos Jogos Abertos de Santa Catarina em 1997 na cidade de Concórdia, meu primeiro título na categoria principal onde vencemos Xaxim pelo placar de 6 a 5. Outro jogo inesquecível, foi a semifinal do Campeonato Brasileiro de Seleções de 1997 contra Minas Gerais, onde tivemos um atleta expulso e passamos os 2 minutos sem tomar gol e bombardeado por não sei quantas mil pessoas. Vejo essas “fitas” constantemente.

 

Futsal de Primeira: Você acha interessante a criação de eventos de premiação para os melhores do ano ao final de cada temporada?

Nelsinho: Com toda certeza, tínhamos isso quando eu trabalhava em Floripa nos anos 90, era sensacional.

 

Futsal de Primeira: Queremos muito te agradecer pela entrevista e te parabenizar por tudo o que já fizeste para o futsal. Desejamos muito sucesso neste ano que está iniciando com suas equipes e estamos sempre na torcida para que um dia possamos receber a notícia do retorno da Tuper ao cenário do futsal brasileiro. Um abraço!

Nelsinho: Queria agradecer a vocês pela oportunidade de eu expor meus pensamentos nesse espaço tão respeitado. Coloco-me a disposição de todos para trocarmos ideias (nelsoncneto@brturbo.com.br) para o crescimento do nosso esporte e como mensagem final queria dizer que temos muito que trabalhar, nosso esporte precisa e merece se tornar olímpico.

Quanto a base (formação), que possamos cada dia mais avaliar nossas conquistas pelos craques e homens que estamos formando e não só pelo número de títulos conquistados. Sigamos em paz e um grande abraço a todos.

 

Fonte: Futsal de Primeira (entrevista feita pelo nosso amigo Edésio Reis Cardoso, o Dé).

 

 


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